Devanir Merengué

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DIVERSIDADES E ADVERSIDADES NO PSICODRAMA

  

Caro Moreno

 

Escrevo para dizer que não tem sido fácil a vida nesse começo de século XXI. No passado o futuro era bem melhor com maquinas produzindo tudo por nós, cenas luminosas mostrando pessoas fazendo filosofia, arte e amor. Me sinto um pouco enganado, sabe?, porque nada do que foi prometido aconteceu: as guerras são mais sofisticadas, os refugiados são cruelmente expulsos de seus países, xenofobia cresce, a corrupção é endêmica, um constante estado de guerra se naturaliza, os muito ricos estão cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres...

 

Imagino você cheio de energia me dizendo que temos chance, em um “universo aberto” de realizar muitas mudanças que seria impossível em um “universo fechado”. Sempre otimista! Mas não está muito fácil saber para onde ir, que mudanças seriam essas. O que não faltam são adversidades.

 

Como compreendo a história do Psicodrama, cuja genealogia está por ser feita, existiram, a grosso modo, dois momentos mais fundamentais que se confundem com sua própria história: a nascente em Viena, com uma teologia (que chamo teologia moreniana), a efervescência do começo do século XX e uma criação cujas raízes estão plantadas no teatro grego, nas interessantíssimas noções de protagonista e de co-inconsciente.

 

Aí aconteceu sua vinda para a América e, embora mantendo seus projetos originais, a experiência no novo mundo, muito mais prático e dinâmico, do meu ponto de vista, fizeram com que certos conceitos e técnicas se tornassem mais evidentes, como os testes mais objetivos, a sociometria, o treinamento de papéis. Talvez, como preferem os americanos, algo mais centrado na consciência, no ego, na aprendizagem, sem que isso tivesse rompesse com o fio estendido por você ainda na Europa.

 

Temo estar sendo impreciso na minha ligeira e econômica história. De qualquer modo, para ir direto ao ponto, sinto que hoje o jovem Moreno está mais esquecido que o Moreno da América. Para você, talvez, tanto faz. Tudo seria Psicodrama. Mas não para mim, que tenho o maior apreço pela cultura helênica e nem tanto assim pelo pragmatismo americano. Talvez seja bobagem, mas tenho minhas razões.

 

Acho nosso mundo pragmático demais, consumista demais, fundamentalista demais, com certezas demais...  Seria eu um romântico, um libertário? Você também era um sonhador e vivia citando seus heróis, uns malucos que “só” queriam mudar o mundo. O século XXI, caríssimo, vive assustadoramente à beira da barbárie, mais próximo de uma distopia, assustado, vigiado, militarizado. Estamos vivendo uma enorme solidão mesmo estando ultra conectados por wi fi e telas, um sem fim de telas. Aliás, o Psicodrama não pode fugir desta temática: a tecnologia que nos invade a cada dia, aproxima humanos de todo planeta, mas nem por isso nos entendemos.

 

Sinto muito em ter que dizer isso, mas... o Psicodrama contemporâneo corre o risco de ser mais uma técnica dentre tantas outras que curam traumas, que adaptam humanos a um mundo tantas vezes insano, o que não deveria ser desejável para nossos filhos e para nós mesmos, a instituições e empresas que pregam a competição violenta como estilo de vida, o lobo continua sendo lobo do homem...

 

Será que esse é o mundo que queremos?

 

Não sou um saudosista. Não quero voltar no tempo. Não sou tampouco um conservador porque não considero que tenhamos tantas coisas assim para conservar no que diz respeito aos valores. Como pensava Nietzsche os valores necessitam ser resignificados, ou na língua do filósofo, transvalorados.

 

Penso em um salto para o futuro com as conservas culturais produzidas nos campos das ciências, das artes, das filosofias. Sonho, portanto, com um Psicodrama para o futuro que se alicerce na busca de seres mais livres e criativos. Talvez como você sonhava.

 

Comecei a ficar desalentado, e já faz alguns anos, da praticidade excessiva dos psicodramas que supostamente estejam resolvendo tudo. Chamei de “psicodrama de resultados” em uma crítica irônica a um faz-tudo que imagina a técnica como uma pajelança, uma maquiagem, que termina com choro e happy ends.

 

O antídoto, na minha compreensão, é um Psicodrama reflexivo que una sentimento e razão, sensível para com as buscas erráticas dos indivíduos. A abertura para a novidade, para o que ainda não se sabe, saídas com frequência encontráveis nas artes do que na burocracia, na pseudociência, no saber institucionalizado.

 

A palavra VERSIDADE diz respeito à qualidade das coisas, sendo que DIVERSIDADE fala da multiplicidade, da diferença, da variação, mas também do desacordo, da oposição, da contradição. Assim, a própria diversidade já pressupõe ADVERSIDADE. Pensar a partir da diferença é levar em conta um conhecimento adverso.

 

O Psicodrama do futuro, se me permite caríssimo, precisa levar em conta o passado, necessita fazer uma ontologia do presente, para se reinventar em tempos vindouros.

 

O confronto com as artes para aprender e ensinar, especialmente com a tragédia e a comédia inventadas pelos gregos, pela commedia dell’arte, pelos dramaturgos brasileiros; o diálogo com os filósofos que pensam a partir das diferenças na concretude da história; compreender a função social das artes não perdendo de vista as raízes brasileiras e latino americanas como o tropicalismo, o pensamento antropofágico  de Oswald de Andrade, as invenções linguísticas de Guimarães Rosa ou Manoel de Barros, ou ainda de inúmeros artistas e pensadores latino americanos completamente desconhecidos por nós, brasileiros. O enamoramento não implica em fazer do Psicodrama uma outra coisa, mas situa-lo no mundo, conhecendo e se deixando conhecer.

 

Você me pergunta: e a ciência, como fica? Eu, nessa altura do campeonato, tenho minhas dúvidas do que vem a ser ciências humanas. Prefiro, pensar que o Psicodrama, se situa genericamente no que chamavam de Humanidades, um continente de cores, dores, criações e possibilidades. Sim, ciência, mas uma ciência encharcada de nuances, de complexidades, que habita as artes e as filosofias e não uma cópia mal-ajambrada das ciências físicas que nada tem a ver com a nossa prática.

 

Que grande ajuda para a humanidade poder se colocar no lugar do outro – este outro que já nem sempre reconhecemos como humano, ter tempo e espaço para poder pensar, se ver no espelho em um mundo em que nos constrói ao seu modo e semelhança, buscar estes tantos outros eus que me habitam, desgrudar dos papéis colados no nosso corpo que nos amolda e oprime ou que nos deixa feliz sem que saibamos de que coisa se trata, mas que atende a demandas sociais e políticas as quais apenas obedecemos.

 

Talvez você tenha deslocado o foco de suas preocupações propositadamente dos indivíduos para suas relações. Temos aí um modo de descentrar, de empurrar para fora de nós mesmos, de indicar outros modos de vida para além daqueles que julgamos, narcisicamente, os certos e os melhores. Não é fácil viver juntos, não é fácil desmontar as narrativas que nos descrevem de fora. Ao que parece, você joga os humanos para fora e, nisso, nos obriga a olhar nossa humanidade, algo longe de ser lá muito nobre tantas vezes.

 

Sabemos como é difícil escrever a história, a nossa, de nosso grupo, de nosso país, resistir aos tentáculos sedosos de uma vida indicada por gurus, líderes, gente que diz saber o que será bom para cada um de nós.

 

A vida é pura diversidade, luta constante entre forças em conflito. O mundo que ora se apresenta foca no indivíduo, na carreira, no estímulo para “empreender a si mesmo”, na competição, no dinheiro. Esta tem sido a verdade da contemporaneidade, ela nos regula, contra ela alguns brigam.

 

Quando penso na sua história, narrada a partir de personagens como um adolescente estranho e transgressor, um jovem inquieto, um médico um tanto quanto fora dos padrões conversando e trabalhando com indivíduos situados à margem da sociedade recordo também de meu próprio desassossego.

 

E é a partir dele que pergunto constantemente:

 

O Psicodrama continua sendo uma pratica transgressora?

 

Qual a potência psicodramática frente a uma sociedade de controle, cansada e sedenta de verdades absolutas?

 

Qual dos muitos psicodramas existentes quero me associar?

 

Caríssimo, me despeço por aqui. Escrever para você, se não me responde perguntas amplas e desconfortáveis, me ajuda a formula-las para mim mesmo e, por isso, por sua generosidade, me permite perguntar, perguntar... E isso me move.

 

Um forte abraço