Devanir Merengué

Devanir Merengué  

Devanir Merengué

ver todos »

Devanir Merengué

FINGIR É CONHECER-SE?

“O abuso da sinceridade não permite nenhuma ilusão de felicidade”

                                                                                Fernando Pessoa 

O mexicano Octavio Paz (1970) escrevendo sobre Fernando Pessoa diz: “Anglômano, míope, cortês, fugidio, vestido de escuro, reticente e familiar, cosmopolita que predica o nacionalismo, investigador solene de coisas fúteis, humorista que nunca sorri e nos gela o sangue, inventor de outros poetas e destruidor de si mesmo, autor de paradoxos claros como a água, vertiginosos: fingir é conhecer-se, misterioso, que não cultiva o mistério, misterioso como a Lua do meio-dia, taciturno fantasma do meio dia português, quem é Pessoa?”.

Muitas obras foram escritas sobre o poeta. Para o momento, recorto a questão do fingimento em Pessoa. O que é fingir? O paradoxo apontado por Paz é praticamente o que faz todo o tempo o poeta português. Até onde se sabe, na atual pesquisa feita na chamada Arca, caixa onde Pessoa guardava seus escritos e na atual busca de entendimento de sua imensa produção, foram detectados inúmeros heterônimos, sendo os mais conhecidos Alberto Caiero, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares (considerado um semi-heterônimo) e o próprio Fernando Pessoa, pensado por alguns estudiosos, como um ortônimo, que vem a ser alguém que escreve com seu próprio nome. Ele mesmo não existiria, mas muitos existiram nele.

Os diversos heterônimos criados têm biografias, nascem, vivem e morrem. Têm horóscopos, ideologias, caprichos. Seus corpos e seus hábitos são descritos, parentes e histórias com eles, datas importantes, vivem em diferentes lugares e suas vidas se modificam. Dentre os heterônimos existem algumas poucas mulheres e muitos homens desvalidos. Na história da literatura mundial, antes de Fernando Pessoa, muitos escritores, do mesmo modo, escreveram com pseudônimos (falsos nomes), mas ninguém como ele produziu um universo tão rico e tão intrincado. Os heterônimos discutem entre si, pois não concordam com as ideias do outro. Mantém relações intensas. Sá-Carneiro, amigo e também poeta, enviava postais de Paris para os heterônimos. Pessoa ia namorar Ophelia como um heterônimo e a namorada se incomodava com as ideias de Ricardo Reis sobre seu namorado. Escreve o próprio Pessoa (apud Pinto Pais, 2012):

“[..] construí dentro de mim várias personagens distintas entre si e de mim, personagens essas a que atribuí poemas vários que não são como eu, nos meus sentimentos e ideias. [...]  Não há que buscar em quaisquer deles ideias ou sentimentos meus, pois muitos deles exprimem ideias que não aceito, sentimentos que nunca tive”.

Existem os heterônimos menos conhecidos, mas para o recorte feito aqui, basta dizer que são uma infinidade de personagens. Um traço em comum a todos os personagens – 127, mais 75 que não podem ser assim considerados, dependendo do critério, mais 5 personagens reais que não podem ser considerados heterônimos, temos 202 arrolados por Cavalcanti Filho (2012) – “é a circunstância de serem todos derrotados”, segundo esse mesmo autor. E continua dizendo que não há “nessa relação um único grande nome, um herói eminente, um homem de sucesso ou membro da nobreza: alguém que seja reconhecido ou louvado por seus concidadãos. Ao contrário, temos só uma pequena multidão de anônimos, figuras menores que reproduzem a própria vida de seu criador”. E mais adiante: “[...] em todos esses rostos e muitos outros, se contando um pouco da história desse homem infeliz que sonhou ser tantos – e não conseguiu sequer ser ele próprio”.

O que concluímos disso? Que Pessoa fingia o tempo todo?  Escreve Álvaro de Campos em Passagem das horas:

“Sentir tudo de todas as maneiras/ Ter todas as opiniões/ Ser sincero contradizendo-se a cada minuto / Desagradar a si próprio pela plena liberalidade do espirito / E amar as coisas como Deus.”

Pessoa sente-se despregado de si. Com isso, se coloca no outro dramaticamente falando. Cita Shakespeare dizendo que o dramaturgo não é Lear, mas nem por isso seu personagem deixa de ser sincero no seu conflito. Entende que possa ser uma “histeria”, uma “dissociação da personalidade” e se assim for, conclui que “não discute, nem apoia” esse entendimento. Em um poema sem título de 1933 escreve Pessoa:

“Temos, todos que vivemos / Uma vida que é vivida / E outra vida que é pensada/ E a única vida que temos/ É essa que é dividida/ Entre a verdadeira e a errada.”

O que vem a ser, afinal, fingir?

Segundo o dicionário Houaiss ( 2001) o verbo fingir significa “ocultar sentimento, intenção, pensamento; dissimular”. E também “fazer parecer real (o que é falso ou inexiste); aparentar, simular, exprimir sem sinceridade; criar na imaginação: inventar; criar como fantasia; imaginar, supor”. Em seguida, sobre a etimologia latina da palavra, o fingere, “modelar na argila” e depois “dar forma a qualquer substância plástica, esculpir” “dar feição a, afeiçoar”. Por extensão “reproduzir os traços de, representar, imaginar, fingir”.

Carvalho Filho, na obra citada, escreve que o fingimento teria em Pessoa justamente o sentido de exprimir, construir. Ou ainda nas palavras do próprio autor: “o que seria o fingimento senão a construção de uma nova realidade?”. Se preferirmos uma “explicação” do próprio poeta no poema “Isto”:

“Dizem que finjo ou minto/ Tudo o que escrevo. Não/ Eu simplesmente sinto com a imaginação.”

Conhecer-se? O modo reflexivo pressupõe uma auto investigação, espécie de pesquisa sobre a própria identidade, o que é estranho ao universo pessoano. Sempre múltiplo, disperso, diverso outrando-se continuamente e tendo sempre como algoidêntico na odisseia heteronímica justamente essa atitude de aparente distanciamento de si. Ou como nos diz Pessoa:

“[...] sou a cena vazia, onde vários atores representam varias peças”.

“Nunca tive amores tão reais, tão cheios de verve, de sangue e de vida como os que tive com figuras que eu mesmo criei”.

“Não sei, bem entendido, se realmente existiram, ou se sou eu que não existo. Nessas coisas, como em todas, não devemos ser dogmáticos.”

                                                             ****

Conceitos tão caros para a Psicologia e a Psicanálise como Ego e Identidade são inteiramente relativizados podendo ser considerados, nietzscheanamente, como noções metafisicas na obra de Pessoa.

É assombroso que a arte derreta sem muita cerimônia o desejo objetivante presente nas ciências humanas. E faça disso um universo verossímil. Não deve ser tão de graça que Michel Foucault (2009) diz em uma entrevista respondendo sobre História da Sexualidade: a vontade de saber:

“Com relação ao problema da ficção, para mim, é um problema muito importante, e me dou conta que nunca escrevi senão ficções. Não quero dizer com isso que esteja deixando de lado a verdade. Parece-me que existe a possibilidade de fazer trabalhar a ficção na verdade, de induzir efeitos de verdade com um discurso de ficção e de fazer de modo que o discurso seja verdade suscite algo que ainda não existe.”

Todas essas questões levantam problemas (de novo e de novo):

a problematização do que vem a ser realidade.

Não como questão metafisica e separada das dores cotidianas, mas como conflito político e diário se me pergunto: por que é que tem que ser como é? Por que o mundo é assim? Por que sou assim e quem determinou que assim fosse? A realidade passa a ser uma construção determinada coletivamente, assim como todas as certezas do que vem a ser individuo e sociedade.

a necessidade humana de produzir e aceitar verdades fixas e duradouras.

Por que isso aconteceria? Seria algo, digamos, congênito que buscaríamos a todo custo e não suportaríamos as verdades passageiras, as possibilidades fluidas? E por isso os fundamentalismos, as certezas perenes, as absolutices do cotidiano, das ciências e especialmente das religiões?

 

a fetichização dos conceitos.

Conceitos ganham autonomia de tal maneira que não re/presentam nenhuma realidade. Conceitos passam a ser meras convenções sociais a serviço de conservas culturais que, repetidos ad nauseum, se naturalizam e passamos todos a falar deles como coisas reais e concretas, mas inteiramente cindidos da experiência. E aqui não falo apenas dos conceitos das ciências humanas, mas a linguagem, os discursos, os gestos, os sintomas, os sentimentos...

indivíduos territorializados

Nada melhor para as sociedades de controle (existiria alguma sociedade que queira facilitar as vidas sem interesses econômicos ou eleitoreiros?) que os indivíduos repitam as convenções, as ordens unidas, por mais que nós, humanos, tenhamos algo de absolutamente distinto e original.  A diferença promove  momentos de descontrole, escapes criativos.

Muitos problemas outros poderiam ser levantados, mas o mais importante nesse breve recorte é compreender o ficcional como algo politico e ético, que a imaginação humana guarda, inventa, recicla todas as sub/versões, as di/versões do mundo.

Fernando Pessoa, o fracassado, o bêbado que bebia muito e cada vez mais, um homem que temia a loucura, um nada que vagueia por uma Lisboa conservadora e entretida com suas certezas, tradições e tiranias não pode esperar, tal sua grandeza, para saber o que ensinava.

“Mal sei conduzir-me na vida/ Com este mal-estar a fazer-me pregas na alma!/ Se ao menos endoidecesse deveras!/ Mas não: é este estar entre./ Este quase,/ Este poder ser que...

Fernando Pessoa/ Álvaro de Campos, 1934.

Em um século XXI obcecado pelas verdades de superfície, pelo individuo forte e supostamente sabedor, pelo sucesso e pelo espetáculo da politica, da religião, das ciências, das artes talvez Pessoa, no fundo de um bar, embriagado e melancólico perguntasse:

“Quem escreverá a história do que poderia ter sido?”

 

 

 

 

 

 

Referencias Bibliográficas

CAVALCANTI FILHO, J. P. Fernando Pessoa – uma quase biografia. Rio de Janeiro: Record. 2012.

HOUAISS, A.  VILLAR, M.S. Dicionário Houaiss de lingua portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva. 2001.

MICHEL F. Ditos e Escritos III. Estética: Literatura e Pintura, Música e Cinema. Rio de Janeiro: Forense Universitária. 2009.

PAZ, O. O desconhecido de si mesmo: Fernando Pessoa. IN: Signos em rotação. São Paulo: Editora Perspectiva. 1970

PINTO PAIS, A. Para compreender Fernando Pessoa. São Paulo: Claro Enigma. 2012.